A geografia de Apichatpong – IV

O cinema de Apichatpong

No trabalho crítico é muito tentador descrever um painel revelando escolas, mestres ou doutrinas que guiam o trabalho de um novo cineasta, o realocando não simplesmente como um pensador próprio, mas como um discípulo de alguma área, mesmo que quase invisível, no curto mas denso espectro secular do cinema. Mesmo discordando de tal prática, se quisesse, com Apichatpong seria mais difícil. Há referências aqui e acolá em cada um dos filmes dele, mas isso só transcodificaria para uma conceituação autoral longe da imanência volitiva de Joe.

O cineasta tailandês consegue como poucos elucubrar uma obra filosoficamente precisa, encadeando questões que sempre voltam a cada novo filme, mas que ao mesmo tempo não se repetem, levam sempre a um outro patamar de pensamentos. Vale aqui então tentar fugir da análise fácil e superficial da obra de Joe ao tentar abarcar todos os filmes como uma coisa só e voltar aos filmes, um por um.

Misterioso Objeto ao Meio Dia começa com uma cartela “era uma vez…”, seguida por um plano de quatro minutos dentro de um carro onde nos deslocamos pelas ruas de Bangkok ouvindo uma singela canção pop tailandesa junto a um radialista contando estórias amorosas junto de sons ambientes dos mercados por onde passamos. Na primeira entrevista, uma mulher conta como o seu pai a vendeu para seu tio por uma passagem de ônibus. Nem bem ela termina, e o entrevistador pergunta se ela não tem outra estória para contar. “Pode ser real ou ficção”, conclui. Ao longo do filme, percebe-se que o dispositivo passa distante do mero jogo de cena tão corrente nos anos 2000. Apichatpong está interessado no agora, sem uma conclusão a posteriori do que possa significar socialmente ou culturalmente a venda do pai daquela entrevistada. Ele está interessado mais em quem conta a estória do tigre e dos mitos do que nos próprios mitos. Ele se interessa pela relação que se estabelece naquele momento. Existe um outro tipo de política surgindo aqui e esta não é mais da ordem da contestação, da exposição, argumentação e prova conclusiva. Perde-se a finalidade das entrevistas, ganha-se um interesse genuíno sobre aquele momento de troca, de diálogo. Não há uma verdade a se buscar e portanto não lhe interessa as interseções do real. Brincar com o espectador sobre o limiar entre o documentário e a ficção soaria ingênuo, pois desde a primeira instância, desde o primeiro plano, ele percebe que mais vale flanar por aquelas contingências de estórias sem possuí-las como um documento para usufruto próprio do que buscar declarações peremptórias sobre algum assunto. Ele mesmo diz que o filme é “sobre o nada”. Basta olhar o título e atentar ao costume póstumo das bifurcações estruturais de seus próximos filmes e perceber que sua estréia em longas-metragens também é condicionada a uma divisão. E a segunda parte, não a toa se chama “at noon” (ao meio-dia). O que parece uma volta ao cinema-direto dos anos 60, exprime uma nostalgia de um tempo simples, onde amarrar um carrinho de brinquedo em um cachorro soa “apenas” como uma brincadeira de criança (que na verdade é o que é), sem implicações políticas,  sociológicas ou filosóficas. Apenas um estado de pureza infantil. Talvez um estado idílico, onde nós adultos, quando ingênuos, tentamos voltar, mas que Apichatpong, ao menos nesse primeiro momento, se satisfaz com o mero prazer de olhar. É essa coda que refletirá o desejo impresso dos próximos filmes de Joe.

Eternamente Sua é o primeiro passo elaborado de Apichatpong em busca de um estado primitivo fora de um eixo temporal. Entenda-se primitivo como uma circunstância primeira antes da linguagem (humana e não cinematográfica). Existe algo de indecifrável nos risos infantis da coda de Objeto Misterioso… que não se podem transmutar em signos verbais, escritos, visuais ou de qualquer ordem simbólica. Tarkovski em “Esculpir o Tempo” já deplorava a analogia metafórica como uma chave de exercício intelectual para solidificar, como se dando o aval autoral, para a poética de cada artista e Apichatpong de alguma forma já havia percebido isso na prática com seu primeiro filme (sem errar, diga-se de passagem). O caminho é outro. O que ele consegue elaborar em Blissfully Yours (tradução mais apropriada) é uma filosofia de rasgo temporal diferente da vigente contemporânea (praticada, por exemplo, por Hou Hsiao Hsien). Joe quer ir além da experiência bruta da duração – quer ter contato com um presente primeiro das coisas. Não basta divagar sem eira nem beira por aí (não que Hou faça, mas muito de seus seguidores, desdramatizando suas estórias e seus personagens, acabam fazendo). O que o cineasta procura é o estado pré-linguagem do tempo e do espaço utilizando a narrativa como um guia diegético para adentrarmos fluidamente no mesmo terreno.

Assim, indo antes da linguagem, perde-se momentaneamente qualquer frustração pela condição humana. O “rir para esquecer” estabelecido desde as comédias gregas (e que no cinema, Chaplin executava com perfeição sabendo rir de si mesmo, num duplo processo de esquecimento temporário da morte e  de um gabar-se por poder rir – o ato que relativiza a submissão que devemos a Deus) se transforma numa nova aspiração sensorialista da liberdade. Podemos, ao menos, aproveitar esse instante efêmero com a intensidade devida (sim, essa efemeridade simultaneamente gera um outro tipo de melancolia). E essa intensidade, ao contrário do que a própria palavra evoca, não necessariamente quer dizer uma força descomunal expelindo para fora dos corpos envolvidos. Pode-se simplesmente ser obtida pela confluência de sensações soníferas e sensuais mútuas entre um casal. Sobrando amor, o tempo tem potencial de se intensificar. Apichatpong revela esse estado passo-a-passo, pelo processo concomitante de filmar e se relacionar com essa filmagem. Não é meta-linguagem. É a vida acontecendo no próprio gerúndio da ação. O “Rec” perde seu status de representação e ganha alteridade. Enquanto os cineastas modernos matam o cinema, Joe exalta o instrumento de “bliss”.

Mal dos Trópicos, o terceiro filme de Apichatpong é o que mais se aproxima de um irrepresentável da imagem proveniente desse primitivismo. Como chegar ao “ainda não instituído” registrando mecanicamente um olhar? Ao impor uma imagem, necessariamente não estou instituindo um certo estado pós-linguagem ou, ao menos, dando este trabalho ao espectador configurar este novo código? Eis o paradoxo da imagem que Joe responde à assignificância das coisas, “apenas” respeitando o que vê pela frente. Abole-se a mise-en-scène tradicional para a contemplação de qualquer forma de vida e suas conseqüentes comunhões. O plano reflete e descobre seu próprio processo.

É com esse entendimento que a primeira metade de Mal dos Trópicos perde seu olhar documental enfatizando o casal gay de protagonistas e simplesmente caminha buscando esse estado do que lhe espera, do que a fugacidade do tempo transforma a cada instante. É por isso que depois de poucos segundos filmando Tong jogando bola, a câmera corta para o outro jogo, agora de futebol, que aparecia ao fundo, segundos antes sem nenhum personagem aparentemente relevante. Mas para Apichatpong sentir a ambiência é altamente importante para o escoar do tempo e o fluir da narrativa.

Na segunda metade intitulada “O caminho do espírito”, onde seu início espantou muitos críticos por parecer mais incongruente do que a brusquidão dos créditos de Eternamente Sua – entra uma tela preta, novos créditos, nova cartela de um tigre desenhado – aparentemente estaríamos defronte a um novo filme. Mas logo percebe-se que não, mesmo que a narrativa tenha se descolado de uma configuração primeira. Tão equivocado quanto achatar Eternamente Sua à dicotomia campo e cidade seria prensar Mal dos Trópicos como um dualismo entre realidade e fantasia. Joe está sempre se desvinculando seja esteticamente ou narrativamente de uma lógica categórica (talvez a única lógica derradeira de seus primeiros filmes – a divisão em dois blocos – é quebrada em Tio Boonmee…) menos, como dito anteriormente, pelo bel-prazer de abalar a zona de conforto do receptor da obra, mais pelo impulso criativo nada sistemático do diretor.  O que persiste é sua filosofia e nessa segunda metade damos um passo importante para sua compreensão: há de ser possível representar o inefável. E o que seria mais irrepresentável do que a soma de tudo que não se revela ao mundo das aparências? Ao que também podemos chamar de Deus. E o animal bestial de “O caminho do espírito”, não se comporta como um reflexo do próprio homem? Um espelho da imanência patriarcal, de sentimentos contraditórios e complementares, todos exultantes e expelidos concomitantemente. É uma sensação tão vívida, tão desconcertante e ubiquamente a flor da pele que se materializa em vida. O caminho do espírito está na luta entre seus próprios demônios. Está na entrega. “Monstro, eu te dou meu espírito, minha carne e minhas memórias” é praticamente a declaração autobiográfica do diretor assumindo sua oferenda máxima ao cinema. E com tamanho compromisso é possível escutar a canção da felicidade – canção esta, incrustada no ritmo dos ventos, ranger e uivos ditando o corte dos planos até o fim. Planos estes que não a toa, se encontram em todos os filmes de ficção de Apichatpong Weerasethakul.


Este mesmo último plano de Mal dos Trópicos é o espelho noturno do primeiro plano de Síndromes e um Século. Importante mantermos a memória, como diria John Ford, para podermos manter a consciência sã, mesmo que claustrofóbica. Aqui Joe vai renegar as últimas teorias simplistas que prezam o bucolismo campestre como solução prática de um aprisionamento contemporâneo. Sim, tanto o homem quanto o cineasta Apichatpong preferem o campo à turbulenta Bangkok, mas isso não condiz com a rebuscada e no fundo simples filosofia do diretor tailandês. Nem tudo é “pão – pão, pedra – pedra”, mas além do sólido e o líquido para Joe existe o vapor. Que entremeia inconsciente  sem revelar seu estado originário. Passa por nós, sem se denunciar, como obra-prima que é, obrigando-nos ao trabalho consciente de tentar não mais entendê-lo, como seria no caso de uma substância aquosa perceptível ao nos ultrapassar, mas de tentar, ao inalar o gás, sentir o aroma. No caso de Joe, é o momento de sentar-se para apreciar o cheiro agridoce da vida. Vida essa que em Síndromes e um Século não mais terá seus momentos de clara identificação intensa com a natureza como nos dois filmes anteriores. Agora as doses de “feel good” são homeopáticas. Vêm do entorno. Dos jardins em volta do frio e sereno (sim, esse filme demonstra que os dois adjetivos podem caminhar de mãos dadas) hospital que arquiteta o espaço. São dos momentos de escape, de um olhar reflexivo (tanto interiormente quanto externamente) pela janela do escritório, de uma soneca, piquenique ou conversa nos gramados floridos do lugar. Aqui, mesmo sem dar o passo extremo, como pedir folga de um dia de trabalho, é possível confluir os momentos de rotina com os de escape. O redor serve como espelho para se lembrar que, como um budista, deve-se andar no ritmo da natureza. Mesmo que os passos do trabalho tentem ditar uma aceleração desproporcional. É por isso, que em nenhum momento se vê no hospital, mesmo no andar de baixo, voltado para tratamento de veteranos de guerra, pessoas desesperadas, descompassadas. Tudo ditado no ritmo que o entorno nos empresta.

Não que a filosofia budista dite o ritmo e os engendramentos lógico-causais dos filmes de Apichatpong mas os passos que arquitetam a decupagem de Síndromes… tem  similitudes às de um monge. As semelhanças são incorporadas mais por identificação humana, na conduta do viver, e menos por ideologias sacras. A cena onde um monge, ao ser consultado pela médica, indica tratamentos espirituais para ela, sinaliza o respeito de Apichatpong tanto pelo budismo quanto pela medicina. A religião, a ciência junto à arte, que é seu métier, resplandecem com luzes duvidosas nessa virada de século. Todas em crises estrondosas coadunam para a insurgência de uma grande dúvida quanto ao progresso relativo à liberdade humana. Com a descrença metafísica; com os evolucionismos tecnológicos às avessas que, ao mesmo tempo que aumentam a perspectiva de vida (e isso também pode se tornar um grande problema, ao se deparar com o que fazer com o tempo que sobra) e insuflam a promulgação de guerras, também constroem (para não dizer reconfiguram) novas relações interpessoais propagadas por um sistema de redes que, no mínimo, avilta o contato físico humano; além do fim da perspectiva histórica que traduz no enfraquecimento da esperança, como continuar andando sem olhar para frente? É muito peso nas costas e muita pedra no chão. Apichatpong encara o desafio e relativiza todo esse peso, afinal se carregamos agora, carregamos desde sempre e já que temos muita pedra pelo caminho, mais vale olhar para o chão. Vamos dançar todos juntos ao som da euforia.

 


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