Rango, pai hollywoodiano

“Sente-se, relaxe e aproveite sua pipoca de poucas calorias”


Sim, a frase é dita logo na introdução do filme. E é com tamanha transparência de intenções que desarmamos antes mesmo de entrar na narrativa. Pois quando esta começar, o primeiro trabalho do espectador será deliciar-se com guloseimas e aproveitar uma boa e velha estória. A história do cinema clássico, sem rupturas. Não pense em Godard com suas histórias do cinema, pense num famoso roteirista qualquer e suas escritas hollywoodianas. A célebre jornada do herói sendo resgatada mais uma vez pela (meta)linguagem de um camaleão.

Um camaleão quixotesco enfrentando problemas existenciais sobre seu próprio caminho ainda sem Sancho Pança. Um começo surpreendente, com direito a monólogo sobre sua condição de personagem ainda sem conflito – amargura maior de um filme querendo existir. A epifania camaleônica catapulta à compreensão de que ele só precisa de um irônico e não esperado evento que impulsione nosso herói para o conflito, logo para a existência. Eis que o filme responde na hora com… um acidente de carro – está dada a missão.

Esse jogo entre personagem e filme, duelo entre uma figura versus um mundo onisciente de seus passos, depois de estabelecido, não se corromperá jamais. Abarcará todos os turning, mid e low points que Hollywood vem ensinando desde os primórdios do cinema. Uma aula de roteiro em todos os  sentidos. Aprenda como se faz – menos um ensino socrático que dialogue conforme o pensamento seja formulado, mais uma educação protocolar – segundo o padrão escolar.

Mas se acorrentar é uma escolha. Não necessariamente segura e muitas vezes acertada. Se existe uma teleologia clara, transparente e, diga-se de passagem, até previsível subentende-se então que o pote de ouro não mais se encontra ao final do arco-íris. Vale é atentar-se para suas matizes, de preferência, ainda aproveitando a pipoca de poucas calorias. E se uma das cores mais referenciadas vem do cinema de Sergio Leone (pela trilha, pelos planos, pelo mood), é com o amarelo gasto e empoeirado de uma velha questão fordiana que o filme dialoga de forma travestida – se a lenda está impressa, fomente-se a lenda. Tio Sam precisa eternamente ressurgir com novos expoentes míticos e tendo ovos e farinha nas mãos por que não crescer o bolo? Pois espelhos nessa sociedade não são meros reflexos de projeções e alcance mas, antes, possibilidades de sonhar. É nesse detalhe minúsculo e tremendo que o filme se desvincula da recorrente (e muitas vezes vazia) homenagem ao cinema, pela simples vontade de venerar e adere à procriação contundente não só do gênero mítico do western, como do star system hollywoodiano (prova de que nem só de atores belos e famosos sobrevive o tal sistema). Rango emplaca seu sucesso ao ser mais um pai de mitos.

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