Papo de botequim

Se as discussões do Tropa 1 tiveram algum efeito,  estas recaíram sobre a mente esperta de José Padilha. Nos primeiros minutos de filme, já se percebe uma volta à um mundo acadêmico mas agora, não mais para dar fundamentos foucaultianos à violência, e sim para se armar de argumentos que o defenda por todos os lados. Parece que durante os primeiros cinco, dez minutos o cineasta constrói uma trincheira para não mais ser alvo de tiros críticos, taxações de simplista (quando não fascista), generalizante ou equivocado.

De fato,  temos uma base que não é mais tão unidimensional. A culpa não mais recai sobre os usuários de drogas. Isso, o subtítulo indica. Então, desde antes de sentarmos na poltrona confortável de um multiplex qualquer, já começamos a perceber um dos mecanismos do filme: existe um problema, a violência, que envolve todos nós, brasileiros, e para chegarmos à uma solução, temos que, primeiro, acharmos um culpado. Não é retórica, é uma lógica óbvia, simples e quase matemática.

O inimigo agora é outro. Pronto, temos um objetivo, achar esse inimigo. Descobrimos primeiro que eles são os policiais (corruptos, diga-se de passagem), depois a coisa se complica um pouco mais e a culpa recai nos políticos que não podem ser configurados como incorporações físicas do mal (senão seria o caso de apenas tirá-los do poder) e então entendemos todos juntos (nós espectadores e o filme, vulgo Nascimento – o Rambo brasileiro) que a culpa é, na verdade, do sistema.

Isto tudo é um tanto quanto didático, simplista ou redutor? “A culpa é do sistema” é slogan de comunista pré-datado, cliché de Wall Street à Singapura, escapismo para raciocínios aprofundados ou simplesmente desculpa para nem começar qualquer conversa sobre política. E não é isso que Tropa 2 nos oferece? E não é com isso que saímos satisfeitíssimos do cinema? Na minha sessão, não pude deixar de estranhar (além de levar um baita susto) ao ver um cidadão levantando da cadeira e urrando com os braços pra cima como um torcedor de Rugby, ao “presenciar” a cena do senhor ex-capitão Nascimento espancando um político. Isso sem contar os aplausos fervorosos ao final da sessão, já longe da estréia que, pelo que dizem, são comuns ao fim do filme.

Onde quero chegar, escrevendo um pouco à la Padilha, é aonde ele quer chegar – aperfeiçoando a questão – que efeito de fato, este filme cria. Assim, como uma crítica não precisa (e nem tem como) dar conta de um filme, um filme não tem que dar conta da política. Mas fomentar uma discussão política já é uma vontade louvável (se sincera, mas daí, impossível discernir). E isso é bem perceptível nas duas horas de projeção.

Com esse tempo surgem lembranças que se transformam em digressões. Sobre o filme li analogias com Batman, proclamações  sobre os bordões que irão ficar, mas se tivesse o direito de comparações estapafúrdias, falaria que lembrei mesmo é de John Ford (inevitável pela mostra acontecendo concomitantemente) e, indo mais longe (e talvez mais preciso) de Avatar. Não gosto de comparações, nem tento trazer tudo de volta para o cinema, mas também não pauto críticas dos outros segundo critérios herméticos meus, portanto lá vai a divagação.

Lembro agora de uma atitude. Um cara protetor do verde, das plantas e dos oprimidos sustentáveis, assustado com o rumo que o mundo ia tomando, ao invés de se candidatar à governador de seu país (não seria a primeira, nem última vez), resolve fazer um filme. Nele, revela-se mais que um novo olhar sobre o outro, como incitaria o mundo de Ford, revela-se uma atitude radical. Não mais se resolve os problemas guerreando. Nem duelos há mais com os índios. Também não há como colonizá-los. Não adianta mais hastear orgulhosamente a bandeira branca da paz sob a condição de que eles não ultrapassem seus limites de terra. Nem mesmo, tentar entender o outro com o olhar de estrangeiro. Agora, neste filme, é preciso se tornar índio. É preciso radicalizar a priori a estrutura para que as pessoas não só entendam o lado do outro como entendam a ineficácia de todas as outras estratégias previamente usadas (e citadas). Estratégia militar só funciona se configurada para fora do filme, como marketing. É preciso de um alto grau de militarismo comercial, vulgo marketing, para que um filme como Avatar consiga algum efeito com esse novo pensamento anti-belicista de não mais olhar o outro mas se transformar no outro. É preciso sentir na pele, pois agora o jogo de war ganhou elementos da natureza, que não podem ser protegidos pelas peças convencionais do jogo. É preciso que Avatar, dentro de si quebre o paradigma fordiano e fora seja visto por bilhões de pessoas para que, quem sabe, alguma coisa possa mudar. O mérito, e ao mesmo tempo, o grande problema de Tropa de Elite 2 é que ele tem a mesma ambição expositiva de um Avatar, sem qualquer rigidez e consistência interna. Ele vê um problema urgente – a violência – e se pergunta, antes de filmar, do lado de fora, como tratá-lo. A pouca semelhança se encontra no esforço e na suma necessidade de mostrar esse problema para o maior número de pessoas possível (com suas diferenças de proporcionalidades mercadológicas) para que então isto se torne assunto político. A iniciativa de começar um espaço de discussão é louvável, mas existe um segundo (intrínseco) passo e este se encontra justamente no filme. E aí, como diria a trilha, o bicho pega. Pois voltemos a ele.

Um capitão que trabalhou 21 anos no Bope, é acionado mais uma vez ao surgimento de uma rebelião carcerária no presídio de segurança máxima, vulgo Bangu 1. Se a resolução do problema dependesse desse cara, a sua equipe nem entraria no presídio para que todas as facções pudessem se escalpelar e não sobrar ninguém. Assim, seguindo a lógica de seu raciocínio, o Rio de Janeiro teria um problema a menos para lidar. Mas um ativista dos direitos humanos fica sabendo do ocorrido, chega à prisão e recebe autorização para entrar lá e resolver o problema através do diálogo. Um dos integrantes do Bope (Matias) desrespeita o comando do capitão, invade a cela, e com uma sagacidade oposta aos dos policiais do caso 174, dá um tiro certeiro e mata o bandido do Seu Jorge, quer dizer do Beirada. Capitão Nascimento perde seu posto, vira sub-secretário de segurança e tendo a visão panorâmica da coisa, começa a perceber o passo a passo da culpa retratado aqui.

O problema são seus mecanismos. O off, não mais salvador da narrativa como no primeiro, mas pensado e projetado no roteiro como elemento que coaduna explicitamente cada nova auto-reflexão sobre os trâmites e conluios políticos, é a mão estendida do cineasta/roteiristas para que o espectador a aperte e siga em frente. Nada mais natural e condizente com a proposta do projeto do filme. Mas se estamos, então querendo caminhar lado a lado, cineasta – obra – espectador, então deve ser por que o problema é de uma profundidade subcutânea, que ultrapassa a mesmice discutida. Mas oras, também não é de se esperar que algum pretendente a dirigir o blockbuster do momento/ ano/década vá escrever pelo cinema o Casa Grande e Senzala da violência. Que se faça, então, o pacto da mediocridade.

Descobre-se lá pelo segundo terço do filme que os policiais finalmente perceberam o bom negócio da informalidade. Se os traficantes ganham tanto dinheiro e não só com drogas, mas com gás, “net-cat”, etc, então por que não cortar o intermediário do negócio ao invés de só cobrar a sua parte da comissão? Para um pretendente a gerador de discussões que repercutirão em  mobilizações e que findarão em mudanças, descobrir lá pelo segundo terço que tirar traficante de favela não adianta nada, sem que se trace um planejamento para os novos “donos da casa”, vulgo policiais militares, talvez seja um pouco elementar demais. É claro que a tendência de corrupção é se alastrar para os morros, caso não se repense um outro modelo de gestão para essa nova-velha milícia. Mas que modelo seria esse? Reformular é preciso, como não importa ou pelo menos não se sabe como. Esperar um filme propositivo já é ter fé demais. Pelo menos, é o que muitos dirão, o filme já gera o debate sobre a cena-pós UPP.

Esse é o ponto em que eu paro de novo com a narrativa, nem prolongo nas questões de como ele filma (mal, por sinal, mas como esse é um espaço de crítica aberta, deixo a bandeira para voltarmos a esse assunto depois) e retomo o questionamento inicial: existe algum efeito político contundente irrompido pelo filme? Tendo a achar que não (tomara que não só hajam vozes dissonantes como eu mesmo esteja errado). Que os bordões, os “pede pra sair” renovados, a ambiência comum (é inegável um certo sentir-se próximo daquele mundo) e a dinâmica cômica, violenta, pseudo-politicamente-pró-ativa são instauradas muito mais veementemente nas cabeças de quem vê, do que alguma discussão frutífera sobre como prosseguir com as tomadas militares na favela, ou como lidar com a milícia ou os governantes. Não é raro associar papo de botequim com o senso comum; daquelas conversas que rodeiam, rodeiam e voltam ao mesmo lugar; dos encontros de idéias, que ao se chocarem não produzem um novo efeito, mas só se estagnam cada um em seu canto do ringue, sendo amaciadas por gelo e compressa. Tapa na cara, acaba só existindo nas bobeirices típicas de Fátima Toledo, mas nenhum bom soco é dado ao espectador. Soco no bom sentido, não como o repugnante último plano do Tropa 1, mas como uma tentativa de acordar as massas para alguma coisa. Um bom soco é coisa de amigo, como já mostrava Ford. A luta sendo leal pode ser tão divertida quanto um musical. A luta no Tropa se contradiz se mostrando mais como um jogo cênico superficial de heróis e vilões do que uma real empreitada para contornar externamente o problema temático do filme. Como lutador político, Tropa de Elite 2 se mostra um grande e espetaculoso conversador fiado de botequim.


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