Dias atuais?

Quando Hamlet encena uma peça que narra diretamente a maneira pela qual seu tio realizou o ato de tomada de poder, cria-se um embate ambíguo: primeiramente, o desejo de confronto direto para com aquele que matou seu pai. Por outro lado, um desejo que é recalcado, que não pode ser exposto. A grande tragédia é menos a loucura de Hamlet e o ser ou não ser daquele fantasma sobrenatural que lhe sopra notícias, e mais um panorama circunstâncial no qual Hamlet reconhece um embricamento onde a denúncia de uma verdade de nada servirá para fins efetivamente políticos – no século XVI, Shakespeare já reconhecera que o enfrentamento político se tornara uma arte de dissimulação, e a política uma questão partidária de poder pelo qual os homens lutam, pura e simplesmente, para terem este poder, distante do ideal grego da polis como o palanque da decisão coletiva. No começo do século XX, esta espécie de formulação ganhará, sob forte influência do materialismo histórico esquerdista, um embasamento teórico mais rigoroso e estruturado que desaguará, dentre muitos outros âmbitos culturais, em diversas formas, perspectivas e correntes artísticas.

No Brasil pós-retomada houve um crescente e desorientado interesse por um realismo social urbano que encontra em Tropa de Elite 2 uma exposição bastante ostensiva dos seus ideais artísticos, e ao mesmo tempo o limite desta proposta ingênua: narrado a partir do ponto-de-vista de um personagem incorruptível que agora se encontra em um local de onisciência, no interior das engrenagens do sistema, o que temos é um flashback das descobertas deste herói que, produto da sociedade, tornara-se um maníaco obcecado por executar a justiça (a formação desta monstruosidade, pária necessária para a manutenção de uma sociedade, é o que observamos no desenrolar do primeiro filme). E este percurso não é senão um percurso de “tomada de consciência”, quando esta máquina da justiça encarnada por Wagner Moura ultrapassa seu círculo habitual mais exíguo e adentra as tramas governamentais, finalmente conhecendo a “realidade das coisas”. Mas o que a nós, expectadores, é ofertado nesta jornada singular? O êxtase pouco fundamentado da premissa realista-social que, aliada a seu verdadeiro irmão, o intelectual esquerdista pós-68, encarnado na figura de Fraga, termina por nos apresentar sua incontestável ingenuidade. Pois tanto os defensores dos direitos humanos, filhos da geração contra-ditadura, quanto documentaristas sociais ou heróis obscuros da direita, que farão justiça a qualquer preço, ainda martelam na velha tecla – a mesma velha tecla que ainda supõe a possibilidade idealista e revolucionária, que ainda luta desesperadamente para perceber o óbvio, aquilo que Shakespeare notou assim que a sociedade começava a se transformar – a boa e velha tecla que pré-adolescentes martelam na puberdade, e para a qual sempre poderemos voltar quão mais fundo caminharmos na ingenuidade eterna que marca o pseudo-intelectualismo brasileiro contemporâneo e que raras vezes consegue realmente perceber que a canção que dela ecoa não é somente de uma ancestralidade monumental, mas de uma inefetividade circular absurda.

O que quer um objeto artístico que procura expôr um quadro social, político ou econômico, tal qual Padilha o faz, como um protocolo, em relação ao sistema jurídico e político do país, sob a bandeira do realismo (deixo esta bagatela para outro momento)? A resposta é óbvia: criar uma evidência que mobilize a sociedade e pressione o sistema de justiça em seu funcionamento, suprimindo a diferença social, em fins igualitários. A suposição é que esta evidência irá suplantar o desconhecimento da classe média em relação a certas condições, pois a classe média estaria sob um efeito alucinógeno da mídia que, no jogo político do esconde-esconde, a teria moralizado de forma alienante. Este dado incontestável da classe média virou uma espécie de égide que justifica a preguiça de se pensar o fazer-política desta espécie de cinema. Sabemos o que se quer, mas pensemos agora no que se consegue.

Há algo de inconscientemente irônico quando, após tantas reviravoltas políticas, o filme termina com uma imagem de Brasília e a voz de Wagner Moura a nos dizer que o buraco é ainda mais embaixo. Irônico não porque Padilha tenham tido esta intenção preliminar, mas por que sobre a imagem aérea de Brasília, poderiamos ter uma imagem de satélite da Nasa enquadrando o globo terrestre inteiro. A interrogação que nos fica é a seguinte: até onde nosso capitão Nascimento irá em sua caça por um culpado maior que possa ser suplantado e que, assim, se estabeleça a ordem do justo? Em nome do que exatamente morrem os inocentes? Somos remetidos ao slogan incoercível no qual sempre resultará esta espécie de busca: “o culpado é o sistema”. Mas nem a violência cultuada no primeiro filme, e tampouco a denúncia cultuada no segundo, quando o personagem de Moura, no CPI, diz-se lutando com outras armas, tem um poder capaz de mobilizar este grande adversário sem corpo.  Nascimento e Fraga, tão ativos nesta luta sociológica e pessoal (prevejo que, no futuro, haverão inúmeras páginas de lacanianos perdendo o tempo estudando os mecanismos psíquicos de Nascimento, sua necessidade de resolver traumas pessoais atacando um outro estabelecido por princípio, e todas as espécies de baboseiras que virão desta auto-consciência), se demonstram extremamente inúteis em suas finalidades, e simplesmente incapazes de desistir da procura inicial. Mas quando o resultado de uma soma não é o esperado, devemos re-ordenar os algarismos primevos. Politicamente inefetivos e aprisionados em um escopo miúdo, o que nem Nascimento, nem Fraga, e nem Padilha percebem é que a classe média não é como é por faltar sabedoria dos mecanismos e efeitos de um certo estado governamental, mas exatamente pelo contrário disto: por saber demasiadamente.

A tomada de consciência não é o elixir que a elite intelectual brasileira sempre quis que fosse, porque, em realidade, toda auto-consciência, ainda que em alguma medida seja uma ferramenta de libertação do indivíduo, é ao mesmo tempo, retroativamente, um aprisionamento deste indivíduo na condição que lhe encarcera. Quem diz a si mesmo “ser desta maneira” também diz a si mesmo “não posso ser diferente disto”. É assim que um esquerdismo pode se aliar a um dito realismo, tomando bases infraestruturais e um materialismo sociologizante como aliados primeiros. Dentro deste panorama-esquemático, um indivíduo como Nascimento lutará eternamente sem perceber que o problema é menos político e mais metódico, tem mais haver com sua concepção de mundo. Esta ideológicamente-denominada “classe média” é mais formada por quem já cansou de lutar, ou tem preguiça de começar, sabendo que não há, neste encarceramento, um fim de luta digno possível. É assim que, ironicamente, o marxismo pode se tornar, sem ser aglutinado por este, um fiel aliado do capital. O papel do artista deveria estar mais em ofertar esta possibilidade, menos como uma utopia do gesto humano, e mais como o possível de se ver o mundo por um outro escopo que reponha os algarismos da questão. No Brasil, que as grandes questões ainda parecem girar entorno de dualidades antiquadas, mais do que nunca precisamos de outros escopos. E se há um mérito reconhecível em Tropa de Elite 2, certamente não está em se gerar um debate sobre um tema, quando o debate gerado não sairá de sua própria circularidade inerente, suas dualidades inexpressivas, seu pretenso realismo estagnado. Esta mais na figura boçal (muito bem) encenada por Wagner Moura que, infelizmente, ao ser dramatizada, é construída como um herói.

O problema da política como uma questão de poder é demasiadamente antigo, e parece que só agora que este realismo social começa a percebê-lo. A questão que deve-se perguntar, num filme que busque tratar de política enquanto tema, é se é possível haver um governo assentado em bases de outra natureza que não as deste sistema que Tropa de Elite 2, com meio milênio de atraso, parece reconhecer. Qual seria esta forma? Como podemos propô-la? E o que ela exatamente ela implica no homem? Questões que o filme passa completamente distante enquanto, em sua utopia, ainda caça seu culpado. O que deixa bem claro que as cartelas que dizem “nos dias atuais”, só se refere ao contexto social, razão que Padilha, com sua malandragem publicitária, soube bem utilizar para ganhar adeptos. Ideologicamente, conceitualmente e estéticamente, é um filme inteiramente datado.


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