O tempo histórico de Ford – I

Depois da bela mostra de John Ford que rolou em outubro/novembro no CCBB, fica a vontade de tirar ainda mais proveito dos seus filmes. Depois de ter a possibilidade de ver dezenas deles em sequência num só contexto e dentro de uma sala de cinema, vale a tentativa de se levantar uma discussão sobre as tantas obras-primas. Passado os filmes, o que resta é a memória…

Lanço agora um primeiro texto dentro de uma pequena série sobre o cara, que (tomara) ainda corre o risco de  se multiplicar com as reações dos outros ladrões de plantão.

 

A lembrança das estórias de John Ford

Estou empacotando meus pertences no xale que minha mãe costumava vestir quando ia ao mercado. E estou indo embora de meu vale. E dessa vez eu nunca mais voltarei. Estou deixando para trás 50 anos de memória. Memória… Estranho que o espírito esqueça tanto do que acaba de acontecer mas guarde claro e límpido a memória do que aconteceu anos atrás – de homens e mulheres mortos há tempos. Mesmo assim, quem pode dizer o que é real e o que não é? Posso acreditar que meus amigos foram todos embora quando suas vozes ainda soam gloriosas aos meu ouvidos? Pois eles permanecem uma vívida verdade ao meu espírito. Não há nenhuma cerca ou arbusto em volta do tempo que se esvai. Você pode voltar e ter o que quiser daquilo – se conseguir lembrar.

– Monólogo inicial de “Como Era Verde Meu Vale”

Não há aforismo que sirva de epítome para John Ford. Pensar é preciso, mas antes, rememorar. Para navegar no tempo fordiano, há de se especular sobre a história. Não a História da América, mas as estórias americanas. Pequenas e vívidas lembranças de uma terra continental, miscigenada e ao mesmo tempo estrangeira de si mesma. Terra que não se reconcilia seja com a abolição da escravatura, seja com a conquista do oeste em cima dos índios. Ford se encarrega de uma missão ao longo de seu tempo à frente da câmera: a de contar estórias sem compromissos com qualquer verdade documental.

O primeiro plano de Como Era Verde Meu Vale sai de um fade para enquadrar um livro sendo corrido com as mãos. Essas mesmas mãos dão um laço num pano com o livro junto a um par de sapatos e um casaco. A câmera sai da ação para ser re-emoldurada pela janela da casa. Enquanto a janela se porta como tela da pacata vida de um vale do País de Gales, a narração em voice-over divaga sobre a memória. A personagem estranha como certas coisas tão próximas podem parecer tão fugidias enquanto outras tão longe temporalmente podem se tornar quase concretas a partir de sua lembrança. O espírito tem o poder fascinante de tornar as coisas novamente reais. O tempo jamais jogará sujo escondendo os fatos de nós. Estes estão todos emanados num espectro temporal que já não nos pertence, mas não pertencer não quer dizer impossibilitado de reaver. É possível se deparar com o passado. Basta lembrar.

Se rememoro estou revivendo (e na verdade, também vivendo) e tornando novamente presente as coisas passadas. Se lembro, tenho a possibilidade de contar. Narrando reavivo um passado que agora retorna ao meu presente. Assim, quando a personagem se questiona se “posso acreditar que meus amigos foram todos embora quando suas vozes ainda soam gloriosas aos meu ouvidos?” ela levanta uma possível chance simbólica de rever os amigos. Ora, a mesma instância, presume-se, tem sua reciprocidade garantida. Então quando os outros lembram de mim, estou voltando à vida. Estou filosoficamente lutando contra a morte. Contar estórias daquelas pessoas, puxando pela memória, é a única maneira de mantê-los vivos. Ao mesmo tempo, sendo muito daquelas estórias autobiográficas, Ford consegue encontrar um tempo, onde ele se encaixa,  aparentemente imortal. Cria-se uma nova metafísica – uma metafísica artística que transcende textualmente ou pela lingüística e não mais pela espiritualização divina.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: