Por que o Coringa venceu?

A diferença entre o cinema clássico americano e o que se desenvolve, hoje em dia, na indústria holywoodiana pode ser derivada, tanto estilisticamente quanto ideologicamente, da apropriação que Christopher Nolan faz de John Ford para, em Batman: cavaleiro das trevas, pôr em jogo os artíficies que, em O homem que matou o fascínora, modulam o nascimento da democracia norte-americana, quando esta se sobrepôs ao regime anárquico e selvagem do velho oeste. Refiro-me à repetição da estrutura quadrangular onde um herói obscuro e potente, acima da lei, se vê do mesmo lado do herói da claridade, figura da lei e de suas burocratizações, que, além de ter roubado dele a mulher que amava, se posiciona, por uma ética superestrutural, contra seu suposto aliado. Esta união, todavia, deve de acontecer para derrotar um quarta figura, representativa de um mal em certa medida ameaçador. A convicção é de que a ideologia expressa nesta estrutura narrativa, na inversão de papéis e a ressignificação e potência doada a cada uma destas quatro figuras pode nos apontar no que, essencialmente, o cinema clássico norte-americano difere do cinema atual, desdobrando-se, deste modo, numa distinta postura sócio-ideológica, numa distinta compreensão do papel da realização artística, e numa distinta concepção do quadro cinematográfico.

As motivações que Nolan empresta à figura do herói são indúbidas: sendo ineficaz em realizar justiça à morte de seus pais pelo viés da lei, Batman opta por tomar a justiça em suas próprias mãos. A partir desta perda inicial, cria-se um ideal de justiça incorruptível pelo qual age nas sombras. Ou seja, suas motivações são retroativas, bem distintas das motivações de Doniphon. O herói fordiano não tem ideais políticos ou sociais, nem expressa em seus gestos nenhuma coerência ideológica. Seu ataque soturno a Liberty Valance tem uma motivação única e simplesmente passional, isto é, na medida em que ama Hallie, e para que ela seja feliz, Stoddard não pode morrer, então ele deve impedir o assassinato do advogado. O herói fordiano, ao contrário do herói segundo Nolan, é passional, direto ao ponto, sem elubricações ou uma auto-consciência de seu papel social, e termina por realizar o ato heróico mais pela força de sua paixão do que pela compreensão de sua posição em meio ao mundo. Diferença #1: Batman é movido por uma ausência, por uma moral que se erige a partir da necessidade de fazer justiça a esta ausência; Doniphon é movido por paixão. Quando a paixão já não pode existir, abandona as armas.

O dilema que o personagem fordiano enfrenta existe na medida em que deve escolher subtrair-se frente à democracia norte-americana para assim satisfazer o desejo da mulher que ama (e há ainda que defenda que Ford é machista), ou rejeitá-la este desejo para a manutenção do modo de vida que caracteriza o velho oeste. Mas já a ensinaram a ler – e ela apaixonou-se pelo ideal democrático; quando as paixões das pessoas mudam, isto quer dizer que o processo de transformação é irreversível: Doniphon “passa o bastão” adiante, abandona as armas, e morre no anonimato. O dilema de Batman,  por sua vez, é de outra natureza. Como alguém disposto a se pôr acima da lei para levar a cabo a justiça, aceita o papel social de pária heróica e se torna um “mecanismo social” de retenção da violência e de supressão do caos que lhe é inerente. Seu dilema começa ao adquirir a auto-consciência desta posição atuante pouco embrionária, que tem mais haver com viabilizar e manter determinada idéia da democracia norte-americana do que com efetivamente enfrentar o mal e suprimir a injustiça. Esta auto-consciência acontece quando se depara com um inimigo que “não tem desejo”, isto é, que é pura e simplesmente uma máscara do caos – uma máscara que adquire em Batman o seu espelho, pois a grande meta do Coringa é fazer com que o homem-morcego o mate e, deste modo, reconheça o mal dentro de si. A solução que Batman encontra é uma não-solução. Não pode vencer o coringa, mas pode escondê-lo da sociedade americana. E, de bom grado, assume para si esta tarefa imbecíl. Diferença #2: Doniphon se torna um herói-obscuro afim de dar continuidade a um processo irreversível, enquanto Batman se resigna como um herói-obscuro para a manutenção da segura ilusão de uma certa sociedade democrática contra o caos que lhe é inerente.

De modo que podemos deduzir rapidamente que, em ambos os filmes, a mentira se acha executando um papel decisivo da estruturação democrática norte-americana, quiça de qualquer sociedade que não se quer anárquica. Mas a mentira que Ford denuncia na estruturação da sociedade democrática, e da qual se arrependem o advogado e a mulher, quando, já velhos, vêem que o deserto selvagem se tornou um jardim, é também a mesma mentira que Batman aceita, com a qual corrobora, a qual se torna o objeto a ser defendido para o bem de um mundo que parece já querer ruir, para a manutenção deste mesmo jardim. O caos de Liberty Valence será sempre vencido pela paixão de Doniphon, mas Ford acredita ser a maior das covardias ter de lhe matar por trás; Já o caos do Coringa não pode ser vencido pela moralidade batmaniana, pois se transfere de homem a homem, e deve-se, sempre, Nolan acredita, para o bem da vida, escondê-lo do mundo, custe o que custar. Diferença #3: O caos é inerente a toda espécie de ordem, sabemos. Nolan esconde o caos para a manutenção da ordem. Ford não aceita ordens, aceita apenas paixões. E ela é e sempre será mais forte que a violência do caos.

John Ford tem uma nostalgia fantasiosa, paradisíaca, deste velho oeste onde a lei era a força e a paixão, o direito natural, e não a mentira que é a ordem – o herói, um irlandês amigável, grosso e beberrão. Se há algum mérito efetivo na obra de Nolan, este é reconhecer que o caos não pode ser suprimido – que ele é uma máscara que há de retornar, em diversos corpos, de diversas maneiras. Desastroso, todavia, é a função do herói batmaniano neste paradigma: se resume a contêr para que o caos não avance, mesmo que nunca consiga, em seu idealismo moral, vencê-lo ou, ao menos domá-lo, em plenitude. Doniphon era capaz de domá-lo, de mantê-lo fora do alcance daquilo que ama. Batman, por sua vez, sái derrotado. O que nos leva ao que seria a maior das diferenças: Por que é que o coringa venceu?

Dois estágios distintos da democracia é que são aqui pensados e vivenciados, ideológicamente, socialmente e esteticamente. O reconhecimento destes dois estágios podem nos fornecer matéria o suficiente para apontar como diferem a maneira através da qual reflete a holywood clássica e a holywood atual, muito acima de quaisquer critérios que busquem uma coesão referente somente à abordagem dos atributos formais dos filmes. O que mudou efetivamente na concepção do papel do artista e das finalidades da arte de um paradigma a outro; e por que é que, no fundo, agora o coringa venceu?

Mas este texto introdutório ainda quer apontar para um terceiro filme, que brotou diretamente destes dois até aqui mencionados. Tropa de Elite repete a estrutura de Nolan – O primeiro Tropa é o espelho da formação de um herói tanto quanto o é o primeiro Batman de Nolan; e o segundo repete, do mesmo modo, a mesma estrutura quadrangular que apontei no começo do texto, preenchendo-a com as figuras de Nascimento, Fraga, Rosane e do grande inimigo sem corpo contra o qual se únem. Sem conhecimento de causa, apostaria minhas fichas que Padilha se inspirou diretamente nos dois batmans de Nolan para realizar os Tropas. O que nos leva a pensar sobre o cinema que faz esta estranha nação: Por que é que a intelectualidade brasileira, seja de esquerda ou de direita (aqui, ambas são iguais), acredita poder prescindir de qualquer figura que preencha o espaço de um coringa? No fundo, Tropa de Elite 2 não é senão a vã busca de Nascimento por encontrá-lo…


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