O tempo histórico de Ford – IV

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A guerra de Ford

Em alguns de seus filmes anteriores à Depois do Vendaval, como na trilogia da cavalaria, Ford já indicava uma certa melancolia em seus protagonistas por não saber mais lidar com sua condição estrangeira. Fosse o general Thursday chegando ao Forte Apache para liderar um grupo de militares invisíveis que jamais conquistariam a glória, fosse Brittles, em vias de se aposentar, enfrentando o próprio efeito do tempo na carne ou fosse  Kirby Yorke tendo que lidar com o retorno de sua família em tempos de conflito com os Apaches. Todos três são personagens solitários, inicialmente sem famílias, que se sacrificaram pelo Estado maior, pela nação estadunidense. Um em busca de reconhecimento (Thursday), outro para apaziguar uma certa sensação niilista pós-rotina militar (Brittles) e um último pela família. Mas, numa instância política, sempre pela América. Uma América que naturalmente recorre ao ataque à quem estiver a frente ocupando seu espaço para descortinar o oeste. Nessa cavalgada, não há lugar para o diálogo como aponta uma cena em que Nathan Brittles conversa com o velho índio da tribo rival.

–        Pônei-que-anda. Meu coração está triste com o que vejo. Seus jovens pintados para a guerra, suas facas manchadas de sangue, os tambores tocando. Isso não é bom.
–        Não é bom Nathan. Muitos vão morrer. Meus jovens, seus jovens. Não é bom.
–        Precisamos parar esta guerra.
–        Tarde demais, Nathan. Os jovens não me ouvem. Eles só ouvem os curandeiros. (…) Búfalos voltaram, ótimo sinal. (…) Você vem comigo. Caçar búfalos juntos. Fumar muitos cachimbos. Estamos velhos demais para essa guerra.
–        Sim, estamos velhos demais para a guerra. Mas os velhos devem evitar as guerras.
–        Tarde demais. Muitas mulheres cantarão canções de morte, muitas cabanas ficarão vazias.

Também não há lugar para o descanso e Ford parece cansado de lutar contra sua condição de estrangeiro. Primariamente parece indicar uma fadiga contra a própria condição inerente de luta sem fim. Isso ainda se agrava intensamente quando se realiza que muitos perdem a noção do por quê se luta, como indicava a bela cena final de Ao Rufar dos Tambores. Neste filme, um casal que acaba de casar, tenta se assentar na terra natal do esposo. Acontece que mesmo tendo bons vizinhos que ajudam na construção da casa, o casal também convive com os índios que os atacam e nulificam todo o suor. O filme parece querer dizer a um certo momento, que com índios ao lado, não há ética protestante weberiana que faça o país crescer – os esforços tendem a focar o embate. Um embate que, nesse caso, iniciou sabe-se lá por quem. Conseqüentemente, sabe-se lá o por quê do conflito. Deve ser por uma tal de bandeira da União que ao fim da guerra, todos podem vislumbrar ereta e vislumbrante em cima de um mastro.

Depois desse filme, Ford continuou estudando várias saídas. Logo em seguida de Ao Rufar dos Tambores fez Vinhas da Ira. Deixou os índios de lado momentaneamente para retratar a mesma caminhada para o oeste, a mesma busca pela terra, agora em Oklahoma. Aqui, como no filme anterior, a personagem de Henri Fonda só queria seu espaço – no primeiro para a procriação de uma nova família, no outro, para manter o estabelecimento da antiga família.

Numa cena antológica logo no começo do filme um mensageiro de uma empresa vem avisar que a família deve sair dali pois a fazenda onde eles moram será demolida.

-(…)Eles me falaram pra te avisar pra sair fora e é isso que eu estou fazendo.
– (pai)Você quer dizer sair da minha própria terra?
– Não venha me responsabilizar, não é minha culpa!
– (filho)De quem é a culpa?
– Você sabe quem tem direitos sobre a terra – é a “Agro-pecuária Shawnee”
– (pai)E quem é a “Agro-pecuária Shawnee”?
– Não é ninguém. É uma companhia!
– (filho)Eles tem um presidente, não têm? Eles têm alguém que saiba para que serve uma espingarda não tem?
– Ah, filho, não é culpa dele por que o banco é quem diz o que fazer.
– (filho)Tudo bem, onde fica o banco?
– Tulsa. E de que adianta pegar no pé dele? Ele é só o gerente. E ele já está quase maluco tentando cumprir as ordens dele.
– (pai)Então, em quem atiramos?
– Irmão, eu não sei…

Além de elaborar um espiral de culpados omissos, a conversa quase cômica se não fosse tão terrivelmente atual catapulta a ética insidiosa protestante ao nível do incontornável, para não dizer intangível. Assim, ao se deparar com instâncias tão basilares como a própria subsistência, o sonho americano parece mais um jogo ironicamente abstracionista. Aflora-se no sujeito, ao ser aleijado das instâncias primárias de sobrevivência, uma sensação de incapacidade plena, como retratada no monólogo conseguinte:

– Estou aqui para te dizer, senhor, que não há ninguém para me tirar da minha própria terra. Meu avô ocupou estas terras há setenta anos, meu pai nasceu aqui. Todos nós nascemos aqui e alguns de nós fomos mortos aqui. E alguns de nós vamos morrer aqui. E é isso o que vale – nascer aqui, trabalhar aqui e morrer aqui. E não nenhum pedaço de papel com algo escrito…

Com simples palavras, o fazendeiro parece descrever o grande pathos americano. Da terra nasces e da terra padecerás. E quando falamos da América não é sempre uma questão territorial? A conquista do oeste implica relativizar a potência bruta da conquista. Vale fechar os olhos para a perspectiva do índio? Ford, de fato, nunca fez um filme sequer, sobre o olhar indígena. Mas talvez essa atitude reitere a sua idiossincrasia artística fundamental. É quase como ele dizendo – “O conflito existe. Tenho esse problema. Mas não sou índio, logo de que me adianta tentar enxergar com olhos irreais? Mais vale tentar concentrar meus esforços numa harmonia comunitária.” Para tanto, é preciso saber lidar com a diferença e para saber tratá-la adequadamente é preciso entendê-la com seus pormenores. É preciso entender que cada povo tem sua história efervescente, sendo diariamente lapidada por bocas tagarelas que moldam a constituição humana (e não legal) daquela comunidade. Mas isso não basta. Posso conhecer detalhadamente a cultura de um povo e mesmo assim discordar dela. É um pouco do caminho que os antropólogos tomaram ao longo do século XX ao pregar o etnocentrismo. Relativizar é preciso. O cinema vai além. John Ford, seu espelho, vai além. Sacrifício é preciso. A vida é feita naturalmente de hecatombes. Referencias bíblicas estão ao largo da obra de Ford ilustrando que às vezes precisamos dar a cara à tapa. Não somos Cristos e não chegamos nem perto, aliás cada vez nos esquecemos mais. Não temos, nem podemos levar a vida como mártir mas devemos saber fazer pequenas concessões pelo caminho. A vida é sofrida mas Hollywood é um caldeirão de histórias padecidas de calvário que conquistam o mundo. Às vezes, como em O homem que matou facínora, são sacrifícios heróicos demais que nos abatem demais. Às vezes é preciso imprimir a lenda, divulgá-la para que tenhamos espelhos dentro de uma sociedade, não moldes rígidos, mas belos exemplos humanitários. Mas estes, se esvaem ao se tornar mitos. Paradoxo de um tempo sem memória.

 


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: