Charada brasileiro

Sem querer dar conclusões a perguntas tão abrangentes e difíceis a gente tenta desdobrar os panos da manga tangenciando algumas questões…

O coringa pode vencer a batalha, mas nunca a guerra. Caso houvesse chance de vitória final, voltaríamos ao estatuto modernista do cinema e, pior, o mundo sofreria de uma desilusão fatalista mais aterrorizante que os piores momentos de guerra fria. Ficando no cinema e indo para o básico, Batman: cavaleiro das trevas e O homem que matou o facínora trabalham com mitos. Tropa de Elite 2 quer uma representação análoga a realidade brasileira. Desse esforço superficial de comparações, achamos traços senão de uma resposta, talvez de uma possibilidade de alcançá-la. Não conheço a intelectualidade brasileira, mas como criar vilões numa terra sem heróis? Os Estados Unidos são experts nessa área e não só reproduzem seus mitos no cinema, como sua política muitas vezes é pautada pela proliferação de vilões. Oras, os comunistas lideraram essa lista por um bom tempo. Os nazis, japas, russos e até mesmo Bush com seu belo chapéu de caubói precisava tirar sua espingarda discursiva do coldre e focar nas “armas de destruição em massa” para responder ao povo americano. É uma terra infestada de facínoras desde sua criação (eles tinham os índios para “atrapalhar” na conquista do oeste, não tinham?) e que, ao mesmo tempo, necessita desta pedra no caminho para que quando outro desafio bater a sua porta, sempre se possa voltar àquela primeira pedra, à historia, para tomar de exemplo. Essa mesma terra nomeia suas pedras. Nós temos a entidade ditadura. Não posso nem lembrar do Collor, pois esse aparentemente já virou amigo de novo. O Coringa é o novo Lee Oswald, Appolo ou Vader só que mais convincente. Bate numa tecla inegavelmente racional só que de uma forma estupidamente emocional (e o problema é que mesmo assim, é difícil não preferirmos o Coringa ao Batman). Imagino que o Padilha, na chave realista que visivelmente funciona muito bem para um retorno comercial, tenha percebido o quão distorcido ficaria o filme caso escolhesse apenas o Beirada ou Fortunato ou Russo para ser esse representante. Chego agora no mesmo ponto da questão. Desassociar um desses como representações do mal pode ter sido uma boa sacada sobre o próprio pathos brasileiro, o problema é, logo depois de um insight tão esperto, cair para o corpo amorfo do “sistema”. Acho que a questão não é poder prescindir de um Coringa mas falta de criatividade (vontade, ambição, juízo?) para procurar. Esse processo de busca no cinema, quando bem sucedido, geralmente tem efeitos importantes do lado de fora da sala escura.


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