Herói e Super-heróis

“Da lama ao caos, do caos à lama, um homem roubado nunca se engana”  – C.S

Devo admitir: nunca gostei de super-heróis, às vezes nem de heróis.  Não ignoro a utilidade de um herói, a força catalisadora que desempenha em construções de identidade, seja de caráter nacional ou qualquer sentimento de propulsão determinada. Mas, os super-heróis, não. No fundo, sempre me soa como uma idéia depressiva. Para mim, sua maior qualidade está na demonstração da eterna insatisfação com um modelo de sociedade que volta e meia escancara sua falibilidade enervante, onde o super-herói nasce como forma de reter, costurar, mesmo emendar a ordem descarrilada, quando não um elemento que procura desestabilizar e arruinar todo o projeto civilizatório, sem qualquer perspectiva de recomeço ou proposta. Este ponto entre a positividade de uma ordem, ou a negatividade de uma retroalimentada anarquia acabam sendo, em último caso, filhos de um mesmo e estabelecido ideário conservador do processo de civilização, ponto o qual, em geral mas não em vias de regra, acaba por excluir elementos como a construção histórica. O super-herói é um self-made man – no entanto, obrigatoriamente (possui um dom, uma vocação, uma necessidade anterior).

Então, é bom lembrar que, acima de tudo, o Coringa é um super-vilão. E, no filme de Nolan, um perfeito super-vilão. Seu personagem é dotado de uma sagacidade tal que é basicamente invencível, ele é, em última instância, o que movimenta o filme e a própria narrativa (Batman coloca o Coringa em cheque e descobre que ele realizou outra artimanha. Então, lá vai o homem-morcego destruir os planos do Coringa para descobrir que ele tinha ainda outro plano mais inteligente ainda). Mas, para nos determos nas questões propostas a partir texto do Pedro, advindas de uma ótima mesa de bar, pensemos primeiramente: porque é que o Coringa venceu? Embora eu possa sofrer de uma tautologia mortificante, podemos voltar aos termos básicos da construção do super-herói e uni-las ao termos estéticos que, tanto o filme de Nolan quanto o quadrinho ao qual faz referência (Batman: Ano um e O Cavaleiro das Trevas, ambos de Frank Miller), propõem.

É interessante notar quanto se distancia o trabalho de Frank Miller, na década de 80, e os filmes que Nolan anda preparando. Miller acabou por retrabalhar completamente a figura do Batman, adotando uma visão que se distanciava dos pressupostos fantásticos e simbólicos das revistas da D.C anteriores. Assim como Watchmen, os quadrinhos de Miller propõe questões que passavam, até então, um tanto ao largo das peripécias da vida destes super-heróis,  defrontando-os com questões legalistas de uma sociedade de direito, colocando quase em cheque a própria figura destes super-herói, que invariavelmente se tornavam figuras amarguradas, quase párias dentro de sua sociedade (aliás, tal qual a figura do artista). O filme de Nolan, embora castigue seu protagonistas com questões de uma natureza próxima das de Miller, pode se resumir em uma única tese: pode existir Gotham sem o Batman?Pode uma sociedade civilizada ser equilibrada sem a necessidade de um homem que trabalhe como símbolo, mártir, e se condense como uma verdadeira válvula de escape?E, sabemos sua resposta: não. Esta é uma resposta um tanto dúbia, pois é uma afirmativa em que se esconde uma negativa: Batman vence ao perder para o Coringa, ou melhor, ao afirmar que a sociedade como tal não está pronta – quiçá estará em algum momento de sua história – para caminhar com seus próprios pés, para existir sem seu herói/anti-herói. O final do filme é esta mentira que se pensa verdade, e o fato de insistir tanto na coroação do sacrifício de Batman denota que o próprio diretor tomou consciência do buraco em que se meteu. No duro, Nolan modifica sua argumentativa e realiza ali o que dispensou por todo o filme, a mitificação do homem-morcego, sua coroação como um verdadeiro herói.

A proposta final do filme de Nolan, realmente, aparece como um ato tanto desesperado quanto conservador. O super-herói é este símbolo necessário para a manutenção de uma determinada idéia e ordem social, um pacto alienante onde um tipo de verdade é escamoteada e trocada por uma imagem falsa. O preço que Nolan paga por seu descuido inicial é duplo:  não apenas a figura do Batman se torna negativa, como a própria figura do herói (Harvey Dent) é falsa, é deliberadamente um artifício desesperado para que o Coringa não vença, o herói é a negação de uma verdade. Em Fort Apache, a mitificação de Thursday é aceita na medida em que reanima o espírito dos soldados da Cavalaria, em que se toma consciência que a construção de um herói faz parte e acalenta a identidade nacional, participa desta tentativa de construção de uma nação.  Mas esta é exatamente a diferença entre os projetos de Nolan e de Ford: os filmes de Ford são uma construção, participam de um movimento histórico presente, Ford nos coloca no calor do momento, onde escolhas são realizadas às vezes sem grandes pretensões, onde homens e mulheres se juntam ou lutam para sua sobrevivência e paixões. E, o que é mais impressionante, ele não é registro, ele te narra.

O Coringa está em casa, ele existe e é o campo. Batman está acuado, é ele o contra-campo. O Coringa vence por que Nolan não se deu ao trabalho de resolver a questão que seu filme colocou.

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Tropa de Elite é, eminentemente, sobre um personagem. O inimigo nunca é outro, é sempre o mesmo e invariável. Embora não discorde que existe uma afinidade entre a estrutura do filme do Padilha com o de Nolan, ou mesmo com o grande paradigma John Ford, gostaria de propor uma outra reflexão, que, na realidade, é nada mais do que repensar o já dito e discutido.

Primeiramente, é de se admirar, ou pelo menos deveria ser, como o personagem de Nascimento serviu como expressão de um tipo de heroísmo nacional, como sua imagem conseguiu respostas e concordes públicos da mídia ou do público em geral. Afinal, de todos os seus atributos, digamos que o que, aparentemente, mais atrai é seu caráter de incorruptível, em um sentido muito menos moral do que legalista. Nascimento é incorruptível por que acredita em determinadas bases do pensamento do estado civil, não por que possua uma natureza e éticas particulares as quais vota como guias existenciais de ação. Sua idiossincrasia vem menos de uma noção particular do que é uma paixão, honestidade ou convivência, mas de paradigmas cabalísticos de uma civilização correta: respeito à autoridades, leis, ordem e condenação à perpetrantes. Para Nascimento – e, eu diria, para Padilha – o processo, condenação e conseqüente aprisionamento não é um problema em si, mas uma solução caso seja destinada aos reais acusados e merecidos. O sistema, embora Nascimento diga o contrário, não é e nunca foi um problema.

E isto nos leva a outra questão. O coringa, ao que me parece, não se torna necessário por que ele existe naquilo que haveria de mais perverso: ele não é personificado, é um profundo calcanhar de Aquiles.  No filme de Nolan, ele aparece como aquele a colocar as questões que a sociedade de Gotham simplesmente não está pronta a responder. Em Tropa de Elite, ele aparece, de fato, na contraditória figura de Nascimento. Lá vai ele, a torto e à direito, procurando o culpado, o grande erro, aquilo que impede ao sistema de carregar até o fim sua grande promessa inicial de força de consolidação. Pois, novamente, não se pode enganar: o sistema funciona, mas está assaltado por forças que o usurpam. É através de uma CPI que os milicianos são presos e condenados – a questão, ao fim, se revolve política. O filme não advoga uma mudança de estruturas, não aposta em uma relação diferente com os “males” da sociedade, mas se assenta em figuras históricas claras de autoridade e processo legal.  Nascimento, ao tomar posições que se pontificam como “acima da lei” não está realmente admitindo a algo novo, afinal, a história brasileira não é mais do que um eterno retorno à estas explosões autoritárias de figuras de governo e da polícia. Ele não é um “super-herói”, não é um Batman, está restrito e responde às leis que coordenam o estado. Mas, estas leis tem, digamos, vácuos, colunas, releituras…

ADENDO

O lado ruim em se pensar Ford ao lado de Nolan e Padilha, ou mesmo de se querer questionar os paradigmas de um cinema clássico e um cinema moderno, está no próprio filme de Ford,  pois,  afinal, até que ponto seu filme não está também repensando o cinema clássico, admitindo o fim de uma era e a necessidade de um novo cinema, um outro western – até que ponto Ford não sentiu as necessárias modificações dos paradigmas que sustentaram o cinema hollywoodiano até a década de 60, chegada de Stoddard como um outro estágio do western. Logo em breve vem Peckinpah, que se interessa pelo o que aconteceria com Doniphon depois das mudanças  pós-Stoddard.

A única comparação que eu faria com o filme de Nolan e o de Padilha é essa: no fundo, são ambos esquizofrênicos.


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