A geografia de Apichatpong – I

Ontem foi um dia importante para o cinema no Brasil com, finalmente, a estréia em circuito comercial, de um filme de Apichatpong Weerasethakul, Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas. Ainda por cima, ouso dizer, com sua obra-prima máxima. Duas poucas mas frutíferas sessões no Festival do Rio de 2010 foram o suficiente para render boas discussões entre os ladrões e agora aproveito o gancho, que permitirá alastrar os espectadores para além-nicho-festival, para dar início a um olhar retrospectivo sobre os primeiros passos de Joe até chegar no tiozão em questão.

A anti-história pré-Joe

Pois que fama você pode atingir nas conversas dos homens, e que tipo de glória você pode conquistar entre eles? Não vê como é estreito o espaço onde residem a glória e fama? Aqueles que hoje falam de nós, por quanto tempo ainda falarão? E ainda que pudéssemos confiar na tradição e na memória das gerações futuras, as catástrofes naturais – inundações  e incêndios – nos impedirão de conquistar uma fama duradoura, para não falar da fama eterna. Se você levantar os olhos, verá o quanto tudo isso é fútil. A fama nunca foi eterna, e o esquecimento da eternidade a destrói.

– “Sonho de Cipião”, Cícero

Como encarar essa passagem? Desgoste ou evite-a, ela pauta o grande questionamento que fizemos desde o primeiro espanto quando começamos a pensar. Existo, logo morro. Se morro o que sobra? Essa é uma das questões primeiras da filosofia que permeia desde a clareira socrática até muito provavelmente os fins dos tempos, onde (e principalmente quando) finalmente pararemos de divagar sobre tudo isso, chegando a um ponto final ao qual muito provavelmente já esperávamos – a própria morte. Essa primeira pergunta que acarreta em milhões de interseções de pensamentos levou a uma interminável busca de significados que faz com que os homens formulem outras inúmeras questões. Tais questões intrinsecamente já se tornam a primeira resposta filosófica do por que estamos aqui e esse por que é adquirir conhecimento, é a própria busca por significados.

Se preciso saber por que a existência sobrepuja ao nada, nasce então a dúvida. A condição efêmera humana suscita perguntas até hoje sem respostas a não ser pelo próprio tratamento de investigação. A filosofia nasce dessa proposta e a partir daí conjectura uma centena de outras problemáticas provenientes de tal réplica. O ciclo é infinito…

O que nos importa aqui não é como a filosofia tratou do assunto ao longo de dois mil e quinhentos anos, mas sim a recente arte do cinema. E Apichatpong Weerasethakul,  de uma certa forma, surpreende ao lidar com o tema. “Nenhuma lei benevolente da natureza nos livrará dos frutos da ignorância”, dizia o historiador R.G. Collingwood, e Joe, cônscio de tal impossibilidade, tratou de embrenhar-se em novas florestas repletas de novos frutos. Mas para experimentar o sabor dessas sementes frescas é preciso antes vislumbrar o campo moderno do cinema.

Pensando historicamente os quarenta e quatro anos que separam o último filme de John Ford para o primeiro de Apichatpong Weerasethakul, é preciso primeiro entender o salto monumental de paradigmas que o cinema enfrentou durante esse período. John Ford era conhecido como um dos fundadores da linguagem clássica americana, apesar de possuir um pensamento sobre a história muito característico entre cineastas e até mesmo historiadores. Pouco tempo depois de seu epitáfio cinematográfico, uma convulsão de novos cineastas espocaram a tela escancarando a forma aristotélica de se contar uma estória. Nasce a ode ao anti-classicismo. Menos do que uma revolução formal pregada pelos cinema-novistas do mundo inteiro, o pensamento pulsante do cinema a partir dos anos 60 dar-se-ia numa conseqüente e natural desilusão pós movimento hippie. Não era só o sonho que acabara. Com ele, a história ia junto. Era seu fim – a morte do cinema.

Os hippies não eram o único libelo comprobatório de uma certa atmosfera descrente no ar. Alguns tipos de pensamento históricos do século XVIII e XIX, como o de Hegel, Marx ou até mesmo o positivismo, eram confrontados com uma nova perspectiva. A história não era mais vista como uma historiografia do pensamento que influiria em determinações das ações futuras. O mundo, como uma linha contínua eternamente re-significante, (como Heráclito pensava e Hegel retomava) e não cíclica, impossibilita quaisquer tentativa de se apossar dos fatos históricos como aprendizado para o futuro e até mesmo para o convívio do presente. Ao contrário de Marx que construiu todo um sistema econômico a partir da história ou dos positivistas, que fulguravam estabelecer as leis a partir da determinação dos fatos o cinema moderno se depara com um campo de centeio sem perspectivas de colheita. Um aparente niilismo que no fundo se deflagra como a opção de encarar o próprio cinema como mundo de escape. A morte do cinema representa a própria volta ao seu umbigo. Se não há mais como apresentar propostas concretas a partir do que se apreende e se estabelece com o tempo do mundo, ou seja, a história, então não há nada mais a fazer além de se voltar para um novo velho mundo – o do cinema.

É claro que sentenciar paradigmas assim sem ao menos apontar exemplos pode suscitar esparrelas generalistas. Dentro desse novo encaixe artístico, a nouvelle vague aparece como a sua mais clara evidência, com Godard chefiando a nova bandeira, mas o curioso é que são as próprias perspectivas particulares de cada cineasta com culturas, línguas e vivências diferentes que remontam o grande quebra-cabeças sem encaixe. O automatismo do homem bressoniano, o vazio desse novo mundo sem sentido visto pelas lentes de Antonioni, o maneirismo agônico de um Brian de Palma, a revisão da jornada aristotélica de Angelopoulos, o escapismo lúdico de Fellini e aí por diante com Fassbinder, Glauber, Bergman e companhia. Quebra-cabeças esse, que engendra como um todo, uma supervisão de um novo mundo sem história.



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