A geografia de Apichatpong – II

O fluxo atemporal

Em relação ao universo, a Terra é um ponto; que importa o que nela acontece? Em relação à imensidão do tempo, os séculos são apenas instantes, e se o esquecimento recobriria tudo e todos; que importa o que os homens fazem? No que se refere à morte; que é igual para todos, tudo o que é específico e distinto perde seu pés; se não existe nenhum além (…) – não tem a menor importância o que fazemos ou o que sofremos.

– Hannah Arendt, comentando a citação de Cícero

Hannah Arendt intensifica o questionamento anterior de Cícero para explicitar uma tradição que “culminou em Epíteto, atingiu o clímax cinco séculos mais tarde no final do Império Romano”, mas que vem sendo enfrentada desde antes com os gregos até os literatos, cineastas, filósofos e inúmeros pensadores de diversas áreas humanas e científicas do século XX. A questão que pode se tornar assustadoramente intangível por sua profusão labiríntica de caminhos, alcança novas esferas pela escolha de diferentes perspectivas.

Correndo pelos campos contemporâneos do cinema, pode-se então encontrar o saboroso fruto da plantação de Apichatpong. O diretor tailandês se distancia do olhar moderno ao não tomar a pequenez humana como algo inexoravelmente trágico, como faziam muitos dos cineastas modernos. A condição humana pode até ser trágica, mas Joe aponta que podemos lidar com isso de uma forma mais leve. Se aprendemos que o passado já não ensina a estruturar o futuro, que aproveitemos o presente como pudermos – ingenuamente. Ingenuidade no sentido de perca de evidências físicas relativas ao tratamento do tempo consumido a cada instante. Por outro lado, o cinema de Apichatpong revela que já sabemos de algumas coisas. Perdemos a inocência de tempos primitivos e se queremos voltar a tal estado de alguma forma é por saber que não estamos tentando remediar o passado, apenas convivendo com o caminho sem almejar o fim.

O pulo que o cinema contemporâneo, conhecido por uns como cinema de fluxo*, dá para o cinema moderno está na prontidão de enfrentamento do tempo. Não mais se reclama de uma incapacidade de prospecção futura mas se mergulha no presente como ele se apresenta.

Em Eternamente Sua, os momentos de fruição na mise-en-scène do sono (influenciadas mas orquestradas diferentemente das experiências de Andy Warhol) ou pela sensualidade derivada do ambiente da floresta não carregam o fardo de um tempo pesado mas embriagam as personagens numa duração naturalmente “light”. Cria-se um clima de bem-estar. Uma sensação criada pela escorrer da água, pelo fluxo quase real do tempo, (real em relação ao efeito do tempo corrido), pela mise-en-scène das personagens (a preguiça e a letargia no bom sentido) e ainda derivada da narrativa, já que o casal se encontra ali através do escapismo da rotina urbana**.

Nos filmes de Joe, o mundo é sempre partido em dois (com exceção do recém lançado em circuito Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas), mas ao contrário do que se possa pensar ao ouvir ou ler que Joe busca um estado primitivo, nunca os dois mundos são uma dicotomia entre o passado primitivo e o presente. Os dois mundos sempre estão coligados pelo tempo pois a divisão de fato é dada pelo espaço. Assim, percebe-se a desistência de um uso racional e efetivo da história para a aplicação do reconhecimento da geografia. O que vale é a experiência. Como não dá pra olhar para frente, olhemos para o lado. Não a toa, a metáfora do deserto está incrustada em inúmeros filmes atuais – não há lugar para chegar, então voltemos a caminhada. Apichatpong volta, todos voltam. Mas voltam, com um diferencial. Uma coisa é o estágio primitivo, outra é tentar voltar para esse lugar. A partir de agora, existe a consciência do caminho. Como não adianta sonhar com a utopia, o que vale mesmo são as fruições temporárias, (fruições que muitos críticos gostam de levantar nos filmes sem demonstrar de fato, o que deve gerar uma outra discussão em breve) mas que, pelos menos se esquivam da melancolia apocalíptica do modernismo cinematográfico que não vê saída para solidão do homem. A apreensão dessa nova perspectiva por conta do cinema contemporâneo é um passo além da atitude deleuziana da taxionomia. Isto por que para tanto, se for preciso, o cinema de fluxo se desvencilha da narrativa e da palavra para simplesmente absorver a experiência do estar-aí no mundo. A contemplação ganha força e a palavra, nesse cinema, começa a perder a sua. Para o bem ou para o mal.

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* Aqui no Brasil, Luiz Carlos Oliveira Junior escreveu um bom texto sobre o assunto em sua monografia de fim de curso, em 2006. Mas mais do que uma comprovação de um movimento, vale levar o texto (assim como qualquer escrita desse blog) como um gerador de discussões. Para onde isso está caminhando? Quais são seus problemas e suas respostas, se há alguma? Até que ponto a teoria está incrustada nos filmes e até que ponto muito dos filmes não se aproveitam desse mutismo patente como moda preguiçosa de se criar uma construção dramática?

** Nesse sentido, outros cineastas como Hou-Hsiao Hsien e Gus Van Sant levam essa imersão no presente mais longe abolindo quase inteiramente a narrativa (vide Café LumièreLast Days)


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