A geografia de Apichatpong – III

Joe entre tantos

Apichatpong está dentro e fora do fluxo contemporâneo. Ele também evita o ressentimento com a falta de sentidos do mundo para buscar captar impressões dessa profusão de pulsações ao seu redor, mas diferente de outros cineastas contemporâneos, jamais jogará a palavra fora. Para ele, ainda o que importa é o contado – suas memórias, suas estórias – o “era uma vez”. A diferença é que ele abandona a estrutura aristotélica para desencadear pulsões inerentes à sua filosofia. Se em Blissfully Yours (onde o próprio nome já indica onde ele quer chegar – “bliss”, sem tradução literal pode ser lido como a “suprema felicidade”) Joe procura chegar a um estado epifânico, descolado da razão, isto só é possível pela estória do rapaz que foge do trabalho para um breve encontro com sua namorada nas matas tailandesas. Ao mesmo tempo, é comum na filmografia do diretor um corte como ele faz entre o piquenique dos dois namorados para Orn, a senhora que havia aparecido no começo do filme, transando com seu marido. O estranhamento inicial por parte do espectador é natural, afinal a diegese já os encaminhava para a narrativa do casal mas aqui, existe uma intenção primordialmente diferente de uma geração anterior. Apichatpong não corta, monta ou quebra a diegese para incomodar e conseqüentemente sinalizar o dispositivo para o espectador. Se ele corta para um casal transando “do nada”, carregará a narrativa com a mesma naturalidade para que Orn encontre o casal futuramente apesar, ou melhor, junto ao dispositivo. Aqui, jamais uma descontextualização espacial ou uma câmera na mão ferirá o estatuto de diegese de quem assiste, pelo contrário: Apichatpong se mostra um grande conhecedor da arte ao balancear meticulosamente cada enquadramento ou cada duração de plano para que perturbe o mínimo possível (quando nada) a atenção do outro lado. Tudo para focar-se no “era uma vez”. Quando o faz (caso dos inúmeros olhares direto à câmera) é pontualmente com o sentido de lembrar que estamos levando a estória junto ao ato de filmá-la – todos em um só presente. Com o detalhe essencial já mencionado de uma narrativa não aristotélica. Uma cena não encaminha necessariamente a sua ulterior que empurra à próxima e assim sucessivamente. Ele tem uma estória para contar e cada corte parece enfatizar que não será pelo modelo da “linguagem cinematográfica tradicional”. Ele conta a cena que o interessa naquele momento específico. Ao cortar pode ser que ele continue naquele mesmo espaço de acontecimentos ou pode ir para outro completamente diferente se isso encaminhar o espectador para um estado latente de fruições.

Uma diversidade do estado presente é o que vemos durante o começo de Mal dos Trópicos. O que aparentemente poderia soar como uma estética documental dos costumes tailandeses, para Apichatpong o espaço é sempre um personagem. Enquanto alguns críticos esforçam-se e forçam para enxergar um espelhamento de detalhes entre as duas partes estruturais do filme, vale se deixar levar pelos caminhos que a câmera nos indica para entender não só a relação do casal de homens como o mundo ao seu redor. É o caso do olhar de Tong que ao terminar de quebrar um gelo (seu trabalho era, literalmente, cortar grandes massas de gelo) olha para um lado, corta-se para o que se subentende que seja a vista da personagem, mas ao invés do comum contra-plano posterior do ator, a câmera começa a se aproximar num travelling sem zoom da estátua de cisne em primeiro plano até entrar num lento fade para a próxima cena num belo cenário enquadrando um outro lago com um caminhão a frente. Usar o lago como leitmotiv entre os planos pode parecer forçar uma situação visual nem tão parecida mas não é assim que a memória funciona?

Apichatpong diz em muitas de suas entrevistas* que seus filmes são produtos de suas reminiscências. Por mais, como corroborava John Ford, que entrevistas de diretores nunca devam ser usadas para comprovar análises cinematográficas, pensar no difícil processo de concatenação de imagens fugidias que acontece da mente para fora, ajuda a entender uma certa montagem que desvie do caminho estabelecido pelo costume cinematográfico sem que isso seja uma forma de confrontá-la diretamente. A decupagem sempre de um rigor absoluto, ora tão harmônica com seus objetos de cena e suas cores no lugar e tom exatos, ora tão aparentemente improvisadas mais remetem à uma arquitetura colonial feita de cartas onde cada vento ao invés de derrubar toda a estrutura, corrobora para delinear o esqueleto da obra. Apichatpong ao contrário de suas entrevistas onde diz que, junto às suas memórias, adiciona na hora idéias que surgem da equipe e do elenco, parece saber a medida certa do que pôr em quadro e do que tirar. Talvez menos na ficção documental de Misterioso Objeto ao Meio Dia, mas a partir de Eternamente Sua, junto a Mal dos Trópicos e indo ao auge com Síndromes e um Século, Joe faz jus ao seu diploma de arquiteto.

_________________________________

* Algumas entrevistas além de bons textos do cineasta podem ser lidos no livro “Apichatpong Weerasethakul” de James Quandt.

 


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: