A geografia de Apichatpong – V

Uma nova metafísica do tempo

Joe não quer provar nada para ninguém, nem encontrar nenhuma verdade filosófica. Apenas apresentar um estado. Mas diferente de outros cineastas contemporâneos, ele vai levar seu cinema para um lugar além da fruição efêmera. Voltemos ao plano corrente de Apichatpong – o olhar para o céu. Não é esta a ação primeira apregoada pela percepção de passagem de tempo? Ok, posso me espantar com a maçã caindo da árvore e a partir daí começar a pensar, mas até então tenho apenas o espaço. Se olhar para a árvore hoje e novamente amanhã, ela estará no mesmo lugar. Já o céu é inerentemente uma passagem transitória pelo mundo, em constante estado de mutação.

Paremos para pensar na coordenação desses planos dentro dos filmes de Apichatpong: num primeiro instante, em Eternamente Sua, averiguamos o fracasso do solstício – raios de sol fugazmente interpenetram as nuvens condensadas de vapor. Voilá, sra. divindade. Não Deus, mas a divindade – que antes de ser a causa de tudo, da negação do nada, da antítese do vazio (isso sim, seria Deus) é no fundo um reflexo especular do próprio homem. Taí uma inédita proposta para o paradoxo milenar da tradição metafísica. Ao surgir o homem, do nada, eis que surge a dúvida: por que existe algo e não o nada? Antes do nada, há o que?  A única resposta possível sempre foi Deus. Mas se Deus criou tudo, continuamos sem saber o que vinha antes do nada, pois na teoria, o nada implica… nada, inclusive a ausência de Deus. A partir daí, como levantado anteriormente, à sucessão de questionamentos provenientes desta essência primeira, impera o domínio da razão a procura de significados. Quando finalmente percebemos, em pleno século XX, que a razão não dá mais conta de explicar o não-nada, a mortalidade e a condição humana, cai-se numa crise monumental. Diferente do cinema moderno que utiliza o cinema como escapismo de um beco sem saída, o cinema contemporâneo vai flanar por entre fruições efêmeras por aceitar mais “serenamente” (por falta de uma palavra melhor) tal condição. Toda volta à esse contexto é meramente um prenúncio da esperta sacada de Apichatpong. Se o vazio é que instaura o mundo, vamos abarcá-lo junto a idéia de Deus, de substância e de matéria e arquitetar seu equilíbrio para que isso tudo seja apresentado dentro da fluidez artística ultrapassando sensorialmente (não mais só pela razão) o receptor da obra para que, a partir desse transbordamento harmônico, ele possa fazer o mesmo com suas próprias pernas.

O segundo plano do olhar para o céu, funciona como espelho do primeiro. Se temos o sol como protagonista de Eternamente Sua, agora lidamos com a falta de luz em Mal dos Trópicos – o plano acontece a noite. Equilibremos as coisas. No mundo é preciso saber lidar com o excesso mas também com a carência de coisas. É preciso ter força no impulso artístico mesmo sem luz, mesmo sem a clarividência do mundo. Pois, novamente, para Joe importa menos achar uma verdade absoluta e mais estabelecer uma harmonia entre o fisicamente palpável e sua essência que perdura. Essa busca está intimamente ligada a idéia de divindade onde ele aparentemente vai instituir uma representação divina rebaixada ao nível dos homens, mas no fundo essa representação (como do símio ou tigre em Mal dos Trópicos ou do já apelidado “Chewbacca” em Tio Boonmee…) não é de fato consumada, pois Joe apresenta Deus como algo ontológico. E esse ser ontológico serve fundamentalmente como nosso espelho, para inspirar nossos passos, sem sentido de guia, mas como um conhecimento de busca, de que “é preciso andar, portanto andar é o que me resta fazer”. De novo, a medida se pesa pela perspectiva que se toma – “restar” não deve ser encarado como clausura de ação, mas como liberdade.

E é por isso que chegamos ao terceiro plano do “olhar para o céu”, não a toa, o primeiro plano de Síndromes e um Século, como um passo libertário para a imersão na idéia de passado (primeira metade) e futuro (segunda metade) como se um grande painel especular se abrisse defronte ao homem e com ele a opção de imergir na escolha de seu próprio tempo. Apichatpong não trabalha com a ideia temporal de passado-presente-futuro (por isso a “ideia” de passado e não o passado propriamente dito), escoa pela geografia mas dentro desse espaço presente, conflui o mundo. Com a ideia de passado, de futuro, com a ideia de nada (o sugador como buraco negro, como vazio, o vácuo numa compreensão tanto científica quanto filosófica), com a ideia de divindade… Tudo dentro de um espectro temporal pessoal. Talvez esse seja o indício do espanto que esse cineasta causou nos críticos ao redor do mundo e talvez por isso suas obras tenham sido taxadas de “acriticáveis”. Não é mais simplesmente um trabalho próximo ao inefável, é a própria singularidade de seu tempo impressa naqueles fotogramas. Como descrever tamanha peculiaridade? Em Tio Boonmee… o próprio tio no momento de sua morte, olha para o céu, o mesmo (mas novo) plano do céu, com a lua, recortada pelas pedras, sob o ar transitório do sereno, e pergunta: “O que está errado com meus olhos? Eles estão abertos mas não consigo ver nada.” Talvez essa seja a hora de fecharmos os nossos e seguirmos por conta própria.


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