Arquivo do mês: maio 2014

The Promise of Politics, epilogue

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The modern growth of worldlessness, the withering away of everything between us, can also be described as the spread of the desert. That we live and move in a desert-world was first recognized by Nietzsche, and it was also Nietzsche who made the first decisive mistake in diagnosing it. Like almost all who came after him, he believed that the desert is in ourselves, thereby revealing himself not only as one of the earliest conscious inhabitants of the desert but also, by the same token, as the victim of its most terrible illusion. Modern psychology is desert psychology: when we lose the faculty to judge – to suffer and condemn – we begin to think that there is something wrong with us if we cannot live under the conditions of desert life. Insofar as psychology tries to “help” us, it helps us “adjust” to those conditions, taking away our only hope, namely that we, who are not of the desert though we live in it, are able to transform it into a human world. Psychology turns everything topsy-turvy: precisely because we suffer under desert conditions we are still human and still intact; the danger lies in becoming true inhabitants of the desert and feeling at home in it.

The great danger is that there are sandstorms in the desert, that the desert is not always quiet as a cemetery where, after all, everything remains possible, but can whip up a movement of its own. These storms are totalitarian movements whose chief characteristic is that they are extremely well-adjusted to the conditions of the desert. In fact, they reckon with nothing else and therefore seem to be the most adequate political form of desert life. Both psychology, the discipline of adjusting human life to the desert, and totalitarian movements, the sandstorms in which false or pseudo-action suddenly bursts forth from deathlike quiet, present imminent danger to the two human faculties that patiently enable us to transform the desert rather than ourselves, the conjoined faculties of passion and action. It is true that when caught up in totalitarian movements or the adjustments of modern psychology we suffer less; we lose the faculty of suffering and with it the virtue of endurance. Only those who can be endure the passion of living under desert conditions can be trusted to summon up in themselves the courage that lies at the root of action, of becoming an active being.

The sandstorms moreover menace even those oases in the desert without which none of us could endure, whereas psychology only tries to make us so accustomed to desert life that we no longer feel the need for oases. The oases are those fields of life which exist independently, or largely so, from political conditions. What went wrong in politics, our plural existence, and not what we can do and create insofar as we exist in the singular: in the isolation of the artist, in the solitude of the philosopher, in the inherently worldless relationship between human beings as it exists in love and sometimes in friendship – when one heart reaches out directly to the other, as in friendship, or when the in-between, the world goes up in flames, as in love. Without the intactness of these oases we would not know how to breathe, and political scientists should know this. If they who must spend their lives in the desert, trying to do this or that, constantly worrying about its conditions, do not know how to use the oases, they will become desert inhabitants even without the help of psychology. In other words, the oases, which are not places of “relaxation” but life-giving sources that let us live in the desert without becoming reconciled to it, will dry up.

The opposite danger is much more common. Its usual name is escapism: to escape from the world of the desert, from politics, into… whatever it may be, is a less dangerous and more subtle form of ruining the oases than the sandstorms that menace their existence, as it were, from without. In attempting to escape, we carry the sand of the desert into the oases – as Kierkegaard, trying to escape doubt, carried his very doubt into religion when leaped into faith. The lack of endurance, the failure to recognize and endure doubt as one of the fundamental conditions of modern life, introduces doubt into the only realm where it should never enter: the religious, strictly speaking, the realm of faith. This is only an example to show what we are doing when we attempt to escape the desert. Because we ruin the life-giving oases when we go to them for the purpose of escaping, it sometimes seems as though everything conspires mutually to generalize the conditions of the desert.

This too is an illusion. In the last analysis, the human world is always the product of man’s amor mundi, a human artifice whose potential immortality is always subject to the mortality of those who build it and the natality of those who come to live in it. What Hamlet said is always true: “The time is out of joint; O cursed spite / That ever I was born to set it right!” In this sense, in its need for beginners that it may be begun anew, the world is always a desert. Yet out of the conditions of worldlessness that first appeared in the modern age – which should not be confused  with Christian other worldliness – grew the question of Leibniz, Schelling and Heidegger: Why is there anything at all and not rather nothing? And out of the specific conditions of our contemporary world, which menace us not only with no-thingness but also with no-bodyness, may grow the question, Why is anybody at all and not rather nobody? These questions may sound nihilistic, but they are not. On the contrary, they are the anti-nihilistic questions asked in the objective situation of nihilism where no-thingness and no-bodyness threaten to destroy the world.

Andrew Wyeth - Wind from the Sea, 1947

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A insustentável leveza do ser

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Quando os amigos lhe perguntavam quantas mulheres tivera, ele dava uma resposta evasiva e, se insistiam, respondia: – Umas duzentas. – Alguns invejosos afirmavam que exagerava. Defendia-se: – Nem tanto! Minhas relações com as mulheres começaram há mais ou menos vinte e cinco anos. Dividindo duzentos por vinte e cinco, dá mais ou menos oito mulheres por ano. Não é tanto assim.

Mas, desde que vivia com Tereza, sua atividade erótica tropeçava em dificuldades de organização: não podia dedicar-lhe (entre a sala de operações e sua casa) senão uma pequena faixa de tempo que decerto explorava intensamente (como um agricultor aproveita ao máximo sua faixa de terra), mas não podia se comparar às dezesseis horas que súbito recebera de presente. (Digo dezesseis, pois mesmo as oito horas em que lavava os vidros ofereciam mil oportunidades para marcar encontros com novas vendedoras, funcionárias ou donas de casa.)

O que procurava em todas essas mulheres? Por que elas o atraíam? Não seria o amor físico a eterna repetição do mesmo ato?

De forma nenhuma. Há sempre uma percentagem de inesperado. Ao ver uma mulher vestida, podia de fato imaginar mais ou menos como seria ela nua (nisso sua experiência de médico completava a experiência de amante), mas entre a aproximação da idéia e a precisão da realidade subsistia um pequeno intervalo de inimaginável, e era essa lacuna que não o deixava em paz. Além disso, a busca do inimaginável não termina com a descoberta da nudez, vai além dela: que cara faria ela ao tirar a roupa? O que diria quando fizesse amor? Como soariam seus suspiros? Que rictos se estampariam em seu rosto na hora do orgasmo?

Aquilo que o “eu” tem de único se esconde exatamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar aquilo que é idêntico em todos os seres humanos, aquilo que lhes é comum. O “eu” individual é aquilo que se distingue do geral, portanto aquilo que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, aquilo que precisa ser desvelado, descoberto e conquistado do outro.

Tomas, que durante os últimos dez anos de sua atividade médica vinha se ocupando exclusivamente do cérebro humano, sabia que não havia nada mais difícil do que identificar o “eu”. Entre Hitler e Einstein, entre Brejnev e Soljenitsin, há muito mais semelhanças do que diferenças. Se quiséssemos expressar essa idéia em números, poderíamos dizer que existe entre eles um milionésimo de diferença e novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove milionésimos de semelhança.

Tomas era obcecado pelo desejo de descobrir esse milionésimo, de apoderar-se dele; era essa a essência de sua obsessão pelas mulheres. Não era obcecado pelas mulheres, era obcecado pelo que em cada uma delas havia de inimaginável, ou melhor, era obcecado por esse milionésimo
que torna uma mulher diferente das outras.

(Talvez sua paixão de cirurgião se juntasse aqyu à sua paixão pelas mulheres. Não largava o bisturi imaginário, nem mesmo quando estava com suas amantes. Desejava apossar-se de algo profundamente escondido no interior delas, e para isso era preciso rasgar a camada superficial que as envolvia.)

Temos, é claro, o direito de perguntar por que ia buscar na sexualidade esse milionésimo de diferença. Por que não procurá-lo, por exemplo, no andar, nas preferências culinárias, ou no senso estético de uma ou de outra?

De fato, esse milionésimo de diferença está presente em todos os aspectos da vida humana e por toda a parte é desvelado em público, não havendo necessidade de descobri-lo, ou de um bisturi para chegar a ele. Que uma mulher prefira queijo a todas as outras comidas e que outra não suporte couve-flor é certamente um sinal de originalidade, mas vê-se logo que essa originalidade é insignificante e inútil, e que perderíamos tempo procurando encontrar algum valor nela.

É só na sexualidade que o milionésimo de diferença aparece como uma coisa preciosa, que não se oferece em público e é preciso conquistar. Há meio século, esse gênero de conquista exigia tempo (semanas, às vezes meses!) e o valor do objeto conquistado media-se pelo tempo consagrado a obtê-lo. Mesmo hoje em dia, ainda que o trabalho da conquista tenha diminuído bastante, a sexualidade ainda é para nós o cofre onde se esconde o mistério do “eu” feminino.

Não era, portanto, o desejo do prazer (o prazer vinha, digamos, como um prêmio extra) mas o desejo de apossar-se do mundo (de abrir com bisturi o corpo prostrado  do mundo) que o levava à conquista das mulheres.