É quiçá

Desde junho do ano passado eu sempre me questionei sobre alguns gritos como o da “polícia militar não estudou-vai estudar” que era só um preconceito às avessas e o “nãovaitercopa”. Quando você está em uma manifestação, a euforia da multidão faz com que você desande a fazer algumas coisas sem pensar tanto antes. Mas esses dois sempre ficaram engasgados pra mim. O “nãovaitercopa” é ainda mais complexo: no começo era – quem tava lá, lembra – uma euforia do poder das massas, de fato mobilizando o país, estremecendo as bases do poder que não sabia lidar com aquilo. Se as prefeituras começavam a voltar atrás com aumentos de tarifa de transporte, quem sabe não poderíamos, de fato, repensar a copa que vinha sendo destrambelhadamente pensada e aplicada no Brasil. Mas isso foi bastante passageiro e talvez no final das Copas das Confederações já tínhamos em mente que a coisa andaria pelo caminho mais fácil da repressão daqueles que tentavam denegrir a imagem goodvibe que só a Copa e suas patrocinadoras poderiam criar para o Brasil das remoções, das cidades-empresas, das higienizações da favela (evitemos o discurso velho esquerdista que isso nunca foi melhor, por que enquanto melhoramos em alguns aspectos, ramificações de novos-velhos-problemas são criativamente geradas por um pensamento político gagá). Se então ali na final ou mais ou menos por ali já sabíamos que ia ter Copa – uma Copa, não muito digna ao país, mas ainda assim, uma – por que um grito de ordem tão utópico? Nossos teóricos da comunicação, modernos de facebook, vieram a bradar por aí, meses depois que “não-havíamos-entendido-nada”, pois o “nãovaitercopa” era uma metáfora de um anseio cortado pela raiz, de que iria sim ter copa, mas que ela já não seria a ufanista, exaltada aos quatro cantos, cegas e elitistas. Eu achava desfocada, curtia mais um “olhaeuaquidenovo” que demonstrava uma inabalável força de continuar por quantas porradas levasse no peito. Demonstrava determinação, coisa que sempre faltou pro momento seguinte ao “vamos voltar às nossas vidas”. Determinação pra voltar diferente.

Eu não sei não… falta um dia pra Copa e, tirando as piadas sem muita graça que se apropriam do slogan bem cansado, me assusto um pouco com gente gritando de boca cheia que “vaitercopasim!” por que isso não me parece só uma ansiedade juvenil e feliz com a chegada do futebol, mas, a princípio, parece um grito de bobões que gostam de curtir um alforria com os vândalos-estraga-prazeres, os mesmos que antes ficavam quietos – por que também tinha seu lado cool falar mal do governo ou da mídia – e agora, no espírito da Copa, esqueceram de muito e enfim podem gritar “isso não é hora de baderna, é hora de torcer por nosso país, de receber bem os gringos e mostrar pro mundo que somos o país da festa”. Ok, posso estar misturando os coxinhas patriotas aos que simplesmente querem ver o jogo. Fazendo a justa separação, esses eu entendo, por que existe uma coisa do futebol que é magnético ao Brasil. Nosso país tá cheio de antropólogo bom pra explicar a imanência de um campo de terra sobre nossos pés descalços. Essa vontade não pode ser negada e é a encarnação de nossas contradições. Mas daí, esquecer os acontecimentos ou simplificar o que demoramos tanto pra complexificar (sobre a violência, sobre os movimentos)?
Já tem Robocop, míssil perto do Maracanã e já teve gente presa. Vai ter futebol, mas não vai ter aquela celebração. Não vai ter Teeeetra galvanesco. Ronaldo já não é mais aquele craque, só um poeta calado. O espírito da Copa é outro.

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